sexta-feira, 26 de março de 2010

essa noite, o vento invadiu o quarto sem pedir licença e alcançou o meu rosto com a mesma delicadeza que uma mãe tem com seu filho doente. senti uma pancada no estômago, como um murro. olhei para fora por puro reflexo, procurando ali alguma coisa que eu desconhecia e, ao mesmo tempo, me era estranhamente familiar, como uma lembrança de algo que certamente nunca aconteceu (poucas coisas são menos confiáveis do que uma lembrança!)

quando dei por mim, um sentimento contraditório de tristeza profunda e alegria sem motivos já tinha alcançado o fundo de minha alma. uma melancolia sem fim (e sem começo) tomou conta de mim de repente, como um terremoto. me senti como uma daquelas pequenas flores que, ao toque de qualquer brisa, se desfazem e são levadas, sem rumo. o sono me atingiu sem nem ao menos dar aviso. entrei num estado de torpência absoluta e, sem perceber, adormeci. o sono mais profundo e mais tranquilo que eu jamais tive no último ano.

[minha definição de saudade.]

sexta-feira, 12 de março de 2010


depois de mais de uma semana chovendo sem intervalo, pude ver o restinho de uma chuva vencida pelo cansaço pela janela do meu quarto. quando você se acostuma com o som das gotas caindo, o silêncio que vem depois é ensurdecedor. parecia que qualquer pequeno barulho que eu fizesse seria quase que profano. foi nessa hora que eu me senti absurda, numa cena em que eu não parecia fazer parte. fiquei imobilizada pelo silêncio que procedeu a chuva, e tudo que me restava fazer era respeitar aquele momento que não era meu, mas sim das nuvens que, vagarosamente, se afastavam, dando lugar à um céu que esteve ausente por tanto tempo...

[queria que voltasse a chover!]