
essa noite, o vento invadiu o quarto sem pedir licença e alcançou o meu rosto com a mesma delicadeza que uma mãe tem com seu filho doente. senti uma pancada no estômago, como um murro. olhei para fora por puro reflexo, procurando ali alguma coisa que eu desconhecia e, ao mesmo tempo, me era estranhamente familiar, como uma lembrança de algo que certamente nunca aconteceu (poucas coisas são menos confiáveis do que uma lembrança!)
quando dei por mim, um sentimento contraditório de tristeza profunda e alegria sem motivos já tinha alcançado o fundo de minha alma. uma melancolia sem fim (e sem começo) tomou conta de mim de repente, como um terremoto. me senti como uma daquelas pequenas flores que, ao toque de qualquer brisa, se desfazem e são levadas, sem rumo. o sono me atingiu sem nem ao menos dar aviso. entrei num estado de torpência absoluta e, sem perceber, adormeci. o sono mais profundo e mais tranquilo que eu jamais tive no último ano.
[minha definição de saudade.]

